21/05/09

(im)perfeição

Há pouco ouvi uma história engraçada no rádio Clube Português, o Luís Osório partilhava um episódio interessante a propósito dos heróis, daqueles que criamos e que morremos de medo que nos defraudem, por um motivo qualquer, por uma imprecisão ridícula, enfim, que caiam do pedestal e destruam a nossa fábula. Mas a história que ouvi não defrauda. Foi contada em livro por Gilles Jacob, Director do Festival de Cannes, sobre um encontro que teve com Clint Eastwood, a propósito de um projecto, num café em Los Angeles: Clint chega, com a sua passada suave e segura, aceita de imediato participar no tal projecto e pede um hamburger e um copo de vinho tinto, entretanto a terra começa a tremer, verdadeiramente, numa escala de 5,9 Richter. Em redor há estremecimento e as pessoas reagem ao medo. Quando o abanão finalmente termina, Clint, que entretanto também tinha terminado a refeição, estala os dedos e pede a conta. Clint continuou herói, se tivessem morrido, Jacob teria apanhado boleia para a posteridade.
A história é apaziguadora, porque Clint não se enfiou debaixo da mesa nem molhou as calças. E nós vivemos, muitas vezes, por causa dos nossos heróis. No meu caso poucos, e até são da minha vida real. Três ou quatro pessoas que enchem as minhas fábulas, a forma como levam a sua vida, as suas manias ou os seus gostos, projectando aquilo que eu gostaria de ser. Com a idade passei a ser caprichosa, a atropelá-las com o atrevimento. Digo-lhes de brincadeira, não se atrevam a falhar, a transpirar tristeza ou a perder vontade, a ter um dia mau, um desmazelo, uma palavra fora do sítio, uma contradição, um gesto despropositado, ou um deslize. Não se atrevam a ser imperfeitos.
Não me façam isso.