I.
Não era a hora ideal para fazer a prova por causa do calor que abrasava as solas dos sapatos e cansava as pernas e os braços moles, mas tinha que ser pois o casamento da prima era dali a uma semana e Regina, a costureira, fora requisitada por meia dúzia de convidadas da noiva e outras tantas da parte do noivo. Odete, esbaforida, tirava desajeitadamente a cinta atrás do biombo na sala-atelier da costureira, que tinha as janelas escancaradas para a Praça do Município, para entrar o ar possível, da sombra dos edifícios curvados pelo calor.
Regina era uma mulher elegante, apesar do aspecto carregado por causa do cabelo negro, demasiado para uma pessoa velha, apanhado pela chamada ‘banana’ e que contrastava com os lábios, desde sempre pintados de encarnado vivo, que Regina desde sempre fazia questão de precisar, Nº 7 da Cibelle, amor de uma vida. Lá fora Falcão, o marido da costureira, passeava a filhinha deles, uma terrier lustrosa de pêlo negro, também carregado, sempre embonecada com laços ou gabardines, consoante o tempo que fazia.
Um tanto parecida como a mãe, mas com o olho vivo do pai.
Finalmente Odete conseguira enfiar-se dentro do futuro vestido, toilette copiada de um modelo de uma revista francesa da colecção de Regina, que agora estava atenta ao acerto da bainha e não dera conta que Falcão se tinha assomado à janela e balbuciava qualquer coisa para as duas mulheres:
- Já te disse que não te quero aí enquanto faço as provas às clientes, disse Regina com um alfinete na boca em tom crispado quando deu conta da presença do marido
Em vão, que nessa altura já Odete fazia trejeitos de espanto e boca aberta para Falcão, que devolvia abanos de cabeça, olhos, ora para cima ora para baixo, e sussurros. Com os dedos fechava a boca honrada e fazia o sinal:
- Isto que não saia daqui, é segredo, é Segredo …
Não era a hora ideal para fazer a prova por causa do calor que abrasava as solas dos sapatos e cansava as pernas e os braços moles, mas tinha que ser pois o casamento da prima era dali a uma semana e Regina, a costureira, fora requisitada por meia dúzia de convidadas da noiva e outras tantas da parte do noivo. Odete, esbaforida, tirava desajeitadamente a cinta atrás do biombo na sala-atelier da costureira, que tinha as janelas escancaradas para a Praça do Município, para entrar o ar possível, da sombra dos edifícios curvados pelo calor.
Regina era uma mulher elegante, apesar do aspecto carregado por causa do cabelo negro, demasiado para uma pessoa velha, apanhado pela chamada ‘banana’ e que contrastava com os lábios, desde sempre pintados de encarnado vivo, que Regina desde sempre fazia questão de precisar, Nº 7 da Cibelle, amor de uma vida. Lá fora Falcão, o marido da costureira, passeava a filhinha deles, uma terrier lustrosa de pêlo negro, também carregado, sempre embonecada com laços ou gabardines, consoante o tempo que fazia.
Um tanto parecida como a mãe, mas com o olho vivo do pai.
Finalmente Odete conseguira enfiar-se dentro do futuro vestido, toilette copiada de um modelo de uma revista francesa da colecção de Regina, que agora estava atenta ao acerto da bainha e não dera conta que Falcão se tinha assomado à janela e balbuciava qualquer coisa para as duas mulheres:
- Já te disse que não te quero aí enquanto faço as provas às clientes, disse Regina com um alfinete na boca em tom crispado quando deu conta da presença do marido
Em vão, que nessa altura já Odete fazia trejeitos de espanto e boca aberta para Falcão, que devolvia abanos de cabeça, olhos, ora para cima ora para baixo, e sussurros. Com os dedos fechava a boca honrada e fazia o sinal:
- Isto que não saia daqui, é segredo, é Segredo …
II.
Rosa Maria, uma jovem de cabelos loiros, puros, filha de António Forcado e Maria de Jesus Forcado, proprietários da conhecida loja de Ferragens da terra, ‘Os Parafusos’, ao que tudo indicava, tinha engravidado. E até já tinha nascido a criança. Ou estava prestes. Ou mais ou menos. Que ao cair da noite a informação já estava um tanto maçada, pois já tinha palmilhado calçada de meia cidade em dia de muito calor.
Da casa da Regina na Praça do Município em direcção à ladeira do Pião, passou pela Rua do Castelo em direcção à azinhaga da Torre, descansou um pouco na Mercearia da Benvinda, aí é que foi, e ainda foi a tempo da missa das seis e meia na Igreja do Largo da Misericórdia. Que de nada valeu.
Pois na manhã seguinte a informação ganhou o novo fôlego, tudo por causa da imaginação que se abateu nas almofadas da noite, acho eu. E assentou arraiais na cidade e seus arredores, como uma neblina que se avulta até se tornar densa e cinzenta, tornando-se conversa de nevoeiro. Afinal, para os mais atentos ou com boa memória, Rosa Maria já andava cabisbaixa fazia tempo, o mesmo tempo que escondeu a barriga da rapariga atrás do balcão de madeira da loja de ferragens. O mesmo tempo que tinha provocado um estranho mal de estômago a Maria de Jesus e, ainda pior que a azia, o coração acelerado do senhor Forcado, palpitações desembestadas que apareciam de vez em quando e provocavam estranheza ao médico de família, uma vez que o electrocardiograma fora claro, não se via nada. Nesse mesmo tempo, esclareciam as tais memórias mais atentas, também Deolindo tinha mudado. O fiel e mais antigo empregado dos Parafusos, um homem vindo em novo dos arredores para trabalhar na loja, que muitos juravam a pés juntos ser o cérebro do negócio, andava desorientado. Do marialva que foi comprar plásticos para as comodidades do gado ao miúdo que levou cordel suficiente para dar largas às patifarias e manigâncias infantis, todos afiançavam que nesse tempo incerto que agora se falava, Deolindo tinha perdido o rigor no atendimento aos fregueses.
Uma qualidade, como se sabe, de difícil enfraquecimento, mesmo no comércio das buchas.
Passaram-se os dias e os meses, e nunca mais ninguém viu Rosa Maria, há quem diga os anos. Não se sabe ao certo, a imprecisão da história retira a certeza do tempo. A azia de Maria de Jesus deu lugar a uma úlcera que lhe apanhava as entranhas, de tal maneira, que raros eram os dias que se levantava de cama, a não ser para comer os caldos de carne que o marido lhe preparava a custo, que o seu coração nunca se recompusera dos achaques repentinos, com dificuldade tomava conta da mulher e ainda arranjava tempo para ajudar Deolindo na máquina registadora.
Consta que uma prima da Benvinda, certa vez, e por ser parente do padre, teve honras de visitar numa freguesia próxima o Convento das Irmãs Concepcionistas, que nunca se deixam ver mas vivem ao serviço dos pobres. E o Falcão jura que a Benvinda jura que nessa santa visita a prima viu Rosa Maria loira e pura, e vestida de branco, a tratar das hortaliças viçosas da horta do Convento. Uma história que fazia valer sonhos e conversas, e neblina, pois nunca ninguém acreditou na prosaica versão contada pela sogra de Deolindo, que entretanto recuperara o jeito para os números e a deferência para a clientela, e casara com uma bela jovem loira dos arredores, num bonito dia onde desfilaram mulheres em vestidos de molde francês, dizia a mulher que Rosa Maria tinha ido estudar para fora, era agora feliz mas não queria voltar, simplesmente.
Mas a sogra do Deolindo também era conhecida por inventar muitas histórias, por isso, nunca se sabe.