
Felizmente encontrei a ilustração deste post :)
Tirando as moscas, que normalmente andam mais parvas no Outono, tudo o que é bicho parece que hiberna debaixo do sol quente da minha terra. É clima de vale que engana, a cidade cravada ao fundo das serras camuflada pelo suposto ar verdejante é tórrida.Além da cadela espapaçada na sombra do pronto-a-vestir “Caroço” só vejo uma desempoeirada mulher descer a rua direita, ou do comércio, são onze da manhã. O Rossio parece deserto, os meus olhos não contam com o Terruca que engraxa sapatos a um homem no sítio do costume. Pego na máquina e tiro umas fotografias sôfregas, sinto-me estúpida turista na minha terra, mas não resisto à imagem das ruas desertas e à luz baça do calor. De qualquer forma, se as fotografias fossem realmente boas revelariam parvoíce e medo.Adiante.Na casa dos meus avós o Verão é fresco e tranquilo, ironia dos tempos. Deve-se à inactividade da matriarca e à invenção do ar condicionado. Dantes, haveria corrupio na cozinha e mulheres à conversa, uma roda-viva que culminava impreterivelmente à uma da tarde, quando o senhor se sentasse à mesa e decretasse o silêncio dos comensais.Agora a minha avó matriarca está doente, ou já não está cá, tenho as minhas dúvidas, e é o meu avô soberbo que cuida dela.Por isso o Verão é fresco e tranquilo. Mas não era suposto.Entretanto subo ao andar quente, que tem estado desabitado por contingências idosas. O meu pequeno império infantil está incólume e sei exactamente onde se encontra o álbum das fotografias que me interessam. Escolho umas quantas e dou pela falta de outras tais. Alguém chegou primeiro que eu e devassou memórias, não as restituindo. Falta a fotografia dos meus avós em Madrid e a outra nos Restauradores, ele com a mão no bolso e ela muito elegante, segurava-lhe o braço e sorria para o fotógrafo de rua que havia dantes. Esses fotógrafos transformavam transeuntes em estrelas de cinema. Se bem que os meus avós já eram absolutamente lindos e glamorosos.E também falta a fotografia da minha avó Maria, na realidade mãe do meu avô, portanto bisavó. Durante anos tapada de preto da cabeça aos pés, na terceira página do álbum, foi assim que sempre a conheci. Quem sabe tanta roupa preta a protegia dos calores do alentejo, tal e qual os nómadas do deserto.Prometo devolver as fotografias que restam ao álbum depois de fazer cópias aos bafientos originais. Por medo ou parvoíce quero tê-los em minha casa. O mais perto de mim.
Agosto de 2009