Ela apreciava o ar da ventoinha porque o vento sempre lhe desbravara o caminho das ideias. E assim, colocada no sítio certo, não lhe fazia constipação. Que noite, ui, ai que noite. Já nem se lembrava de uma coisa assim tão ui, malandra. Pensava ela, e também que devia voltar a limar unhas de redondo, e usar verniz preto, que estava muito na moda. Havia de ir ao Silva Freitas comprar um. Isso e soda-cáustica.
- O Cartão de Utente se faz favor, pediu ela
Naquele momento a mulher lá deu soltura à angústia que lhe apanhava os músculos superiores, sentou a miúda que acompanhava no balcão do guichet e tirou os documentos de dentro de uma mala preta, muito surrada, como o seu semblante. A miúda balançava as pernas escangalhadas, como se nada fosse, e fitava a funcionária do guichet com aquele tipo de cara de anjo, meio sonso, meio sinistro. Gioconda fitava-lhe as carnes abertas, era seu hábito só enfiar os olhos em ferimentos graves ou mazelas abundantes, que a carreira na medicina não era um sonho completamente posto de lado, enquanto dava andamento às burocracias da entrada no hospital e se lembrava por mais um momento das pernas amareladas do seu Virgílio, com quem tinha passado uma noite de amor, ou paixão, ela não sabia bem, mas fez-lhe lembrar por causa da cor das carnes gordas. Ou talvez pela melodia romântica, disco pedido, que se ouvia no rádio guichet, Elisabete, doméstica, pediu Jon Secada.
- Foi no arame-farpado, disse a mulher de preto.
Gioconda não fez caso, tinha mais em que pensar, estendeu-lhe as unhas impecavelmente limadas de redondo, pintadas em tom de uva preta, devolveu o Cartão de Utente, e mandou-as sentar, enquanto aguardavam vez para a triagem.
- O Cartão de Utente se faz favor, pediu ela
Naquele momento a mulher lá deu soltura à angústia que lhe apanhava os músculos superiores, sentou a miúda que acompanhava no balcão do guichet e tirou os documentos de dentro de uma mala preta, muito surrada, como o seu semblante. A miúda balançava as pernas escangalhadas, como se nada fosse, e fitava a funcionária do guichet com aquele tipo de cara de anjo, meio sonso, meio sinistro. Gioconda fitava-lhe as carnes abertas, era seu hábito só enfiar os olhos em ferimentos graves ou mazelas abundantes, que a carreira na medicina não era um sonho completamente posto de lado, enquanto dava andamento às burocracias da entrada no hospital e se lembrava por mais um momento das pernas amareladas do seu Virgílio, com quem tinha passado uma noite de amor, ou paixão, ela não sabia bem, mas fez-lhe lembrar por causa da cor das carnes gordas. Ou talvez pela melodia romântica, disco pedido, que se ouvia no rádio guichet, Elisabete, doméstica, pediu Jon Secada.
- Foi no arame-farpado, disse a mulher de preto.
Gioconda não fez caso, tinha mais em que pensar, estendeu-lhe as unhas impecavelmente limadas de redondo, pintadas em tom de uva preta, devolveu o Cartão de Utente, e mandou-as sentar, enquanto aguardavam vez para a triagem.