A mão, seca pela noite, puxou lenta o cortinado japonês, comprado em concordância com as modas urbanas. A urgência do primeiro dia de praia desassossegou o sono e o denso manto de nuvens inquietou a alvorada. De imediato se deixou repousar de novo, caindo pesadamente de volta à cama. Mesmo com o mau tempo, Vanda sabia que teria de ir à praia, pois prometera-o ao seu filho, Raul.
Como é de seu feitio, houve uma preparação cuidada da jorna. Gosta que as grandes decisões não sejam só suas, mas nos detalhes prefere a decisão unilateral: Vanda não general, Vanda é sargento.
O caminho para a praia, uma daquelas praias hippie chic, com um apoio de praia, assim se chamam agora as barracas na areia, com design feng sui e cozinha minimalista, fez-se em bom ritmo. No meio dessa condução impulsivamente apressada algo fez surgir um sorriso ténue no rosto redondo de Vanda: às tantas, à sua frente, ia um daqueles automóveis modestos, um modelo Corsa, em que seguiam dois pares de casais. Casalinhos, pensou ela, troçando sem mesquinhez, mas com a suave maldade a que chamam garotice. O condutor não está muito visível e só se vê que ostenta um boné; ao seu lado, percebeu-se o contorno de um cabelo longo, amarelado, oxigenado. No banco de trás há um braço estendido que alcança o contorno do ombro da sua morena e avista-se a bandeira portuguesa deitada sobre a tampa da mala. Vanda escuta o som da kizomba que o carro dos casais solta e adivinha as bocas deles mascando pastilhas elásticas.
Raul está contente. Vanda continua um pouco impaciente. O cheiro do mar acalma-a, precisa dele desesperadamente. Ninguém parece incomodado com as pedras, que o mar, de propósito, levou até à areia. Vanda quer ficar só. Raul quer brincar. Lá fora, a água está mais morna e as pedras desapareceram.
Vanda decide ficar.
Raul continua contente. Não entende porquê, mas acha que está realmente contente. Sentado na areia, seguro e longe do mar, observa aquela outra estranha criatura. Talvez seja um animal, decide pensar. A mãe, feliz, afunda a criatura, insistentemente. Ao lado, na mesma água, o pai da criatura está orgulhoso. Depois corre para o guarda-sol e antecipa as tarefas do pós-banho. Apesar do ar descuidado, é com ele que a criatura conta para poder sobreviver.
Vanda propõe a Raul um jogo na areia. Mas Raul está enfadado. Vanda apanha as pedras, que entretanto voltaram. Sopros de vento atingem o areal, acentuando o desconforto. Vanda lembrou-se de quando era pequena e imagens de deslumbramento inundam-lhe o pensamento. Há um mistério que não conseguimos descobrir sobre a escolha que fazemos para as nossas memórias. Pensou: será que este momento vai ser recordado por Raul quando se lembrar de mim? Será que eu e estas pedras iremos ser avistadas por ele num tempo longe daqui quando tiver pela frente outras pedras e outras mães. Dará este presente um digno passado?
Provavelmente não.
escrito a dois, por troca de emails, em 2008