O avô disse-lhe que não lia um livro há quarenta e cinco anos.
A rapariga subiu ao andar de cima. Agora desabitado. Numa estante estavam lado a lado, pela mesma ordem de sempre, os livros. Nas prateleiras do meio, o Capital de Marx, uns clássicos russos, e mais manuais socialistas. Nas das pontas, literatura variada, toda ela, carregada do amarelo pálido do tempo. Debaixo da cama, caixas com livros. Modelos novos, cópias de Annas Kareninas, pocket books do Dostoiévski, calhamaços do Nietzsche e do Bergson. A maioria ainda plastificados, e com o nome do jornal que os tinha acompanhado. Comprava-os compulsivamente, acreditava sempre que ia ler cada um, dizia. Mas não lia um livro há quarenta e cinco anos.
A rapariga desceu as escadas e sentou-se à mesa da camilha com a família, de mãos vazias e com as ideias da cor do pó dos livros, amareladas. Ele, que parecia ter adivinhado a escolha da neta, cortava grosseiramente, com a faca do queijo, as folhas coladas de um livro de poemas. Estendeu-o à rapariga, mas de olhos postos na mulher, que abanava a cabeça e sorria a sua demência. E não tirava os olhos dele. Num esgar cúmplice de ternura e marotice. Enquanto e a tia se lamentava às primas, por causa dos diabetes e do vício do chocolate negro. E costuravam com a vida dos outros. Davam gritinhos com a falta de memória, e tremiam como tontas com as novidades. E abanavam a cabeça.
A rapariga subiu ao andar de cima. Agora desabitado. Numa estante estavam lado a lado, pela mesma ordem de sempre, os livros. Nas prateleiras do meio, o Capital de Marx, uns clássicos russos, e mais manuais socialistas. Nas das pontas, literatura variada, toda ela, carregada do amarelo pálido do tempo. Debaixo da cama, caixas com livros. Modelos novos, cópias de Annas Kareninas, pocket books do Dostoiévski, calhamaços do Nietzsche e do Bergson. A maioria ainda plastificados, e com o nome do jornal que os tinha acompanhado. Comprava-os compulsivamente, acreditava sempre que ia ler cada um, dizia. Mas não lia um livro há quarenta e cinco anos.
A rapariga desceu as escadas e sentou-se à mesa da camilha com a família, de mãos vazias e com as ideias da cor do pó dos livros, amareladas. Ele, que parecia ter adivinhado a escolha da neta, cortava grosseiramente, com a faca do queijo, as folhas coladas de um livro de poemas. Estendeu-o à rapariga, mas de olhos postos na mulher, que abanava a cabeça e sorria a sua demência. E não tirava os olhos dele. Num esgar cúmplice de ternura e marotice. Enquanto e a tia se lamentava às primas, por causa dos diabetes e do vício do chocolate negro. E costuravam com a vida dos outros. Davam gritinhos com a falta de memória, e tremiam como tontas com as novidades. E abanavam a cabeça.
As ingratas.