20/04/10

Missa de Domingo

Jacinto costumava ir à missa todos os domingos e ocupava sempre o mesmo lugar, de pé, encostado à porta principal, com o olhar de frente para o altar e a água benta ao lado, o padre e os outros devotos permaneciam mais ao longe. Dali decorava as rezas, as confissões, os pecados, as cabeleiras, as beatas, os namoros, os burburinhos, o silêncio e as manias do padre. Até que certo domingo, a meio da missa, entrou um bêbado na igreja que o confundiu com outro. Verteu-lhe alguns dos seus maiores pecados, e algum vernáculo e só depois ficou mudo e se sentou a rezar. E assim começou tudo. Daí em diante o bêbado passou a aparecer na missa de domingo, não era certo que fosse cumpridor, na verdade houve dias que nunca chegou, talvez porque o vinho o tenha desviado para outras bermas da vida, mas tirando uma ou outra evasiva certo é que na maior parte das vezes o bêbado encontrou o caminho e apareceu para atemorizar fiéis e só depois rezar. A seguir aos pecados de Jacinto, que convém dizer, após o enxovalho nunca mais pôs os pés na santa casa, pela boca do bêbado começaram a ser crismados, a dona Berenice dos Correios, o Idalino, que nessa altura era assessor do presidente da Junta, a Cidália, por ser mulher do Idalino, o doutor Pacheco da Casa de Saúde, e mais uns quantos nomes que agora não interessa dizer, porque o que importa nesta história é que o bêbado não poupava pecado a nenhum e escolhia os pagantes por uma ordem curiosa, da porta principal para o altar-mor. Ora, já se está a ver que este critério não perspectiva boa coisa, tendo em conta que a igreja é um local de fervorosa tradição, até na escolha dos lugares sentados.
E assim se foi cumprindo o cambaleante ritual. Em domingos incertos, o bêbado de identidade desconhecida aparecia para perturbar as almas enunciando os pecados acometidos por cada uma, segundo um já referido estranhíssimo juízo que apontava em direcção ao púlpito. Nesta altura da história, precisamente a meio, acham vocês, perspicazes, que não faz sentido até ao momento um homem do poder ou de arcaboiço ainda não ter tomado conta da situação, por demais incómoda, e ter chutado o bêbado para fora da igreja como se tratam casos semelhantes. Mas não se esqueçam de uma coisa, com a devida procuração de deus nosso senhor, na igreja, quem manda é o padre.
E por sinal um padre de muita tolerância. Não houve domingo que tivesse perdido a paciência, das vezes que o bêbado deu espectáculo, tendo em alto e bom som feito eco das desgraças de cada paroquiano, nunca o velho padre repreendeu ou incitou à punição do homem, nem mesmo quando as beatas começaram a gemer de pânico com a aproximação do bêbado aos bancos da frente, nem com essa proximidade eminente, o padre revelou ponta de inquietude para com aquela ovelha tresmalhada, que insistia em dirigir palavras de mau hálito ao restante rebanho, para depois se consolar no prazer da reza e da contemplação.
Nunca se soube o que passou na cabeça do padre, certo é que a sua autoridade foi respeitada, e dentro da igreja ninguém se prestou a ajustes de contas. Ainda no capítulo que dá abrigo ao bêbado há que referir uma irremediável característica humana neste tipo de discussões, a do indivíduo sentir imenso prazer quando os seus irmãos sofrem de humilhação, e tratando-se de enxovalho público, com pecados de primeira e segunda instância, maior bem-estar se produzia. Ao que tudo indica, o velho padre entendia bem este tipo de contradição, do dissabor da culpa à satisfação do pecado, e talvez por esse mesmo motivo tenha permitido que o bêbado destabilizasse o rebanho. Ou por ternura, que o padre era considerado, como se costuma dizer, um bom homem. Enfim, não faltaram ideias para justificar a relação do bêbado com o padre, como se sabe, mesmo desatinado, o povo é uma súcia de perspicácia. E não nos esqueçamos que o bêbado tinha um propósito geograficamente evidente para todos.
No domingo do imaginado confronto final, já tratados os pecados das devotas senhoras de bem, a igreja estava muito bem composta.
Estava próximo o meio da missa, e falava o padre com habitual serenidade, quando um homem esbaforido entrou igreja dentro. Todos se viraram na vã esperança de ser o bêbado, mas afinal era Jacinto, a frágil alma do início desta história. Vinha dar a boa nova, tinha sido encontrado um morto, mais concretamente, caído num poço, um homem que pela descrição de Jacinto corresponde ao nosso bêbado. Parece que se chamava Benvindo e há muito se tinha perdido na vida, disse a frágil alma, de pé, com o altar de frente e a água benta ao lado, de olhos cravejados no senhor padre. Seu adorado padre.