03/05/10

O cheiro daquele dia



Li num estudo, a propósito de assuntos da memória, que não arquivamos os nossos acontecimentos na sua totalidade. Como se tratasse de uma imagem em puzzle incompleto. Esse mesmo estudo referia, porém, que há sempre hipótese de reconstruir o puzzle. Quando recordamos o mesmo acontecimento com alguém, e esse mesmo nos diz, por exemplo, não foi no sítio x que vimos uma doninha a fazer o pino, foi à sombra do sítio y. Há então possibilidade, tirando peças e acrescentando outras, de modificarmos a imagem que tínhamos de algo. O tal estudo também referia a importância das emoções no arquivo, de tal forma que podem superar a própria imagem visual. Ou seja, podemos apenas guardar a angústia, o medo, o empolgamento, e não nos lembrarmos do com-texto que catalisou tal sensação. Mas no estudo da memória, tão aparentemente correcto, não havia menção ao nosso olfacto, o que é estranho. A mim parece-me que um forte critério de arquivo é o cheiro. Senão, basta recordar: o cheiro de um bebé, o cheiro da terra molhada, o cheiro horrível daquelas flores maravilhosas num dia em que a morte bateu à porta, o cheiro do pão na casa dos meus avós, o cheiro do autocarro em hora de ponta, o cheiro dos brinquedos comprados em Espanha, o cheiro da repartição, da casa do vizinho, enfim.

Quando a imagem se tornar tão preta quanto uma tela de um filme do César Monteiro, não há motivo para preocupação, ainda vão restar as inabaláveis sensações que o odor exala.