03/03/09

Vendedor de Flores

Enfrenta o pôr-do-sol, faz a Avenida 24 de Julho em direcção a Alcântara.
A mota-atrelado faz um barulho estranho e ele é obrigado a parar. Tenta perceber o que se passa, ligar novamente o veículo que não anda. Procurar o telemóvel que não encontra. Está cansado. Contrariado, tira as flores que sobram no atrelado, fecha-o e faz o caminho a pé. O seu rosto deixa escapar a desilusão, o corpo cansado cruza-se com pessoas que o olham. Ele não repara. Apenas se fixa nuns objectos luminosos. São luzes vermelhas, vêm penduradas por fios ao pescoço de homens. Todos eles trazem flores, como Roque. São vendedores de flores indianos. Olham estranhamente para o intruso vendedor. Os olhos da rua confundem-se entre si, parecem zombies, o jogo dos espelhos. Aí, Roque sente uma insegurança quase paranóica. Está assustado, tanto que não dá conta de um vendedor indiano que se dirige a ele. Tem um pato de peluche enfiado num braço, a outra mão agarra um bouquet de rosas. O pato de peluche berra quando o vendedor indiano o aperta, e acorda o outro. O indiano aponta para os sapatos de Roque e depois aponta para os seus. Tem ténis. São brancos e encorpados, um bom plágio da Nike. Diz a Roque que deveria pôr uns ténis como os seus para suportar melhor a labuta.
Roque afasta-se bruscamente, ofendido com a comparação.